10 novembro 2015

E se foi...

Uma mulher que traz a expressão do sofrimento, se expressa bem, sabe exatamente o que quer dizer  e a impressão que quer causar. Já tinha ouvido falar muito dela, mas como tenho exercitado a escutatória, não fiz pré julgamentos, apenas ouvi. Observei e ouvi. Ela sentia muita necessidade de falar, de prender minha atenção. Contou-me tudo, confirmou suas verdades e provou hipoteticamente o quanto tinha razão, o quanto a vida foi ingrata com o seu menino. Ela me contava e seus olhos alternavam hora secos e arregalados em outras rasos de lágrimas. Ela tinha pra me contar uma história verdadeiramente emocionante  e ainda que fosse narrada como se ela tivesse  o papel principal sendo a heroína, criou o menino que não era dela. Fiquei sabendo  de tudo em pouco mais de uma quarto de hora, na casa dela somente são convidados pra entrar gente que ela quer bem os mesmo que ela dá  a mão como cumprimento. Não convidará  a mãe biológica para a comunhão dele e parece que acredita no promotor, aquele do fórum da comarca neste homem ela pensa que dá pra confiar. Seria ela uma mulher sozinha, carente sem ninguém pra conversar? Ou talvez queria me convencer de  como ela  gostaria que a vida tivesse sido... Não sei bem, mas apenas ouvi  e este exercício faz bem pra gente.Desliguei dos afazeres que estão as pilhas dentro da gaveta, dos retornos telefônicos, das medidas impopulares a serem tomadas, de tudo, para simplesmente dar atenção aquela mulher. Eu percebi que ela precisava muito disto, que saiu melhor do que entrou e que apenas não confidenciou mas me convidaria pra entrar na casa dela.
Seu pronunciamento  que me despertou simpatia porque foi me jogando na mesa palavra a palavra os valores  que tem em plena manhã de segunda-feira.
Me deu a mão e se foi.

20 outubro 2015

Gente que ama o que faz e deixa transparecer

Hoje eu recuperei uma bota, preta e com salto agulha pela qual tenho daqueles apegos que me acometem quando gosto de alguma coisa que me acompanhou em momentos bonitos da vida, eu sei que a prática do desapego  me faria muito bem e tenho exercitado, algumas vezes ainda é inevitável. Mas hoje,  foi grandiosamente válido ir atrás daquela  bota, que já me acompanha a  mais de uma década. E foi das mãos de um senhor que tem mais de setenta anos e com o qual eu conversaria uns três dias inteiros sem nunca ter visto na vida. Pessoa agradável de olhar doce e transbordando de simplicidade  e contentamento. Em poucos minutos me  contou todos os procedimentos e olhava para a bota como se   fosse uma obra de arte. Era possível perceber que verdadeiramente estava apaixonado por mais aquele trabalho. O lugar é simples e muito arrumado, todos os pares de calçados em fila arrumados e quando buscou seu caderno de anotações me deixou impressionada, era um caderno pequeno destes brochura com o mês do ano escrito na capa, o número dela era 600, que representava quantos calçados foram consertados neste ano até o mês, tinha o nome e foi ali que ele registrou um ok, no mês de julho. Homem organizado e com registro que tem letra desenhada e sabe exatamente onde buscar informações sobre cada um dos seu rebentos. 
Ser sapateiro é profissão de gente que cuida, que arruma, que recupera, que como este nasceu no século passado, quando preservar era valor.

Me disse que percebia que era um calçado bem cuidado e que nele eu devia aplicar uma pomada de vez em quando para conservá-lo . A sola ficou novinha e andará  comigo por muitos outros caminhos, eu seguirei lembrando que eles  foram consertados e que as pessoas consertam muitos e muitos sapatos em épocas de se descartar e jogar tudo fora e também vou levar comigo o sorriso das palavras que me disseram: Eu sou aposentado senhora, a quinze anos e continuo aqui trabalhando, cuidando  dos sapatos, porque eu gosto MUITO do que eu faço. 

Ah! Eu admiro tanto e me arrepio  com gente assim!


E a moça do jornal nacional...

O clima anda realmente desconcertado, talvez pra  combinar com o povo  que entra  em pane  quando as  chuvas  começam por aqui. Tudo fica mais frio, sem cor e triste.
Que setembro e outubro são meses  chuvosos faz anos que já sabemos, mas  infelizmente as águas não estão mais escoando como antigamente. Também é fato que não havia tanta mídia  e promoção da desgraça alheia  como hoje em dia. São muitos meteorologistas , com diplomas  e não... tem daqueles  que quando vêem as  formigas  correrem rápido pro formigueiro já tem gosto em anunciar enchentes. Um disse  que vai ter enchente sim, pequena , média ou grande... fica meio fácil de acertar assim. Tem radar meteorológico com tecnologia de outros mundos lá do outro lado do mar, onde a turma demora pra fazer manutenção. Defesa civil milionária que investe bastante, quase  como a cura da seca do nordeste. Enfim, notícias e mais notícias  que tem provocado uma intolerância enorme nas pessoas. Algumas delas  que convivem comigo também se achegam pra fazer suas reclamações. Em partes eu sei que eles tem razão , concordo me desculpo e tudo o que me toca, mas  quando passam do ponto eu chamo meus argumentos  e acabo dizendo o que  precisa ser informado: Senhor, o filho é seu apesar de.
O sol reapareceu, as águas baixaram  mas o "senhor do tempo"  avisa que esta  semana vai chover novamente e que não será pouco e que as águas vão subir novamente. Tem gente que nem saiu dos abrigos ainda. Eu lamento  e fico pensando que a composição de fatores climáticos, poluição, descaso, má gestão do dinheiro público, continuarão todos ali e nós seguimos esperando o fim dos tempos. Enquanto o nosso povo tiver ânimo para limpar, lavar, recomeçar e reconstruir talvez ele ainda não chegue. 

E a moça  do jornal nacional disse  que voltou  a chover no Rio Grande do Sul , quando chove lá amanhã  chove aqui e começa tudo novamente.

15 outubro 2015

Irmãos Karamazov

Dia do Professor

Maíra Cintra


" Se engana quem acha que riqueza e status atraem inveja. As pessoas invejam mesmo é o sorriso fácil, a luz própria, a felicidade sincera, a alegria. O que incomoda as pessoas são as amizades que o outro atrai, a boa energia que transmite, o brilho no olhar, a sinceridade espontânea, o amor verdadeiro, a positividade pela vida, a leveza no andar e a paz interior. Se engana quem acha que um corpo perfeito chama atenção, que beleza atrai, que várias curvas dão tesão. Nada disso tem valor se o que tem por dentro não se alimenta de coisas boas. Aliás, dinheiro nenhum paga o que gera a verdadeira inveja, porque a maior riqueza da vida se esconde na alma. "


Saramago

"Quantos anos tenho?
Tenho a idade em que as coisas são vistas com mais calma, mas com o interesse de seguir crescendo.
Tenho os anos em que os sonhos começam a acariciar com os dedos e as ilusões se convertem em esperança.
Tenho os anos em que o amor, às vezes, é uma chama intensa, ansiosa por consumir-se no fogo de uma paixão desejada. E outras vezes é uma ressaca de paz, como o entardecer em uma praia.
Quantos anos tenho? Não preciso de um número para marcar, pois meus anseios alcançados, as lágrimas que derramei pelo caminho ao ver minhas ilusões despedaçadas, valem muito mais que isso...
O que importa se faço vinte, quarenta ou sessenta?!
O que importa é a idade que sinto. Tenho os anos que necessito para viver livre e sem medos. Para seguir sem temor pela trilha, pois levo comigo a experiência adquirida e a força de meus anseios.
Quantos anos tenho? Isso a quem importa? Tenho os anos necessários para perder o medo e fazer o que quero e o que sinto..."
[José Saramago]


22 setembro 2015

Não fazer o mal...

(…) A gente não fazendo o mal a ninguém, já está fazendo um grande negócio porque hoje em dia as pessoas só fazem mal umas às outras. As pessoas se criticam, as pessoas não perdem tempo escutando as outras, as pessoas pré-julgam, as pessoas não tem paciência de reorganizar diariamente o seu arquivo pessoas de informações a respeito de todo mundo, o respeito da vida. Então pra simplificar, rotulam.
— Elis Regina 

24 agosto 2015

Ah, o tempo!

Comer pé de galinha e arrotar pé de galinha

Vivemos tempos  difíceis, de desencantamento e situações inexplicáveis, hoje  até o papai noel da Lapônia  informa  falência no jornal nacional.  Tanta barbaridade, preconceito, inveja, exibição, gente que quer  demonstrar  o que nem é. 
A gente anda assim procurando inspiração entre uma fala  e outra, se agarrando em leituras, imagens, filmes,situações e  pessoas.
Sorte  é que ainda tem gente de cara lavada  que  faz depoimento verdadeiro e mostra a vida  como ela  é. Sem máscaras, sem maquiagem, sem mais.Eu vi  e gostei,fez um contraponto  com a manhã de segunda-feira que sinceramente me fez pensar que o fim dos tempos está chegando...Me  emocionei é óbvio, como tudo que me toca a alma, como tudo que é bonito, que é leve que é expressão de gratidão. Nada, absolutamente nada  me encanta mais do que pessoas  que são o que são, que não perdem tempo com clichês, com representações. Pessoas de verdade me fazem acreditar que ainda é possível!


15 agosto 2015

É assim que acontece a bondade”

Rubem Alves

“Se te perguntarem quem era essa que às areias e aos gelos quis ensinar a primavera…”: é assim que Cecília Meireles inicia um de seus poemas. Ensinar primavera às areias e aos gelos é coisa difícil. Gelos e areias nada sabem sobre primaveras.., Pois eu desejaria saber ensinar a solidariedade a quem nada sabe sobre ela. O mundo seria melhor. Mas como ensiná-la?
Seria possível ensinar a beleza de uma sonata de Mozart a um surdo? Como, se ele não ouve? E poderei ensinar a beleza das telas de Monet a um cego? De que pedagogia irei me valer para comunicar cores e formas a quem não vê? Há coisas que não podem ser ensinadas. Há coisas que estão além das palavras. Os cientistas, os filósofos e os professores são aqueles que se dedicam a ensinar as coisas que podem ser ensinadas. Coisas que são ensinadas são aquelas que podem ser ditas. Sobre a solidariedade muitas coisas podem ser ditas. Por exemplo: eu acho possível desenvolver uma psicologia da solidariedade. Acho também possível desenvolver uma sociologia da solidariedade. E, filosoficamente, uma ética da solidariedade… Mas o saberes científicos e filosóficos da solidariedade não ensinam a solidariedade, da mesma forma como a crítica da música e da pintura não ensina às pessoas a beleza da música e da pintura. A solidariedade, como a beleza, é inefável – está além das palavras.
Palavras que ensinam são gaiolas para pássaros engaioláveis. Os saberes, todos eles, são pássaros engaiolados. Mas a solidariedade é um pássaro que não pode ser engaiolado. Ela não pode ser dita. A solidariedade pertence a uma classe de pássaros que só existem em voo. Engaiolados, esses pássaros morrem.
A beleza é um desses pássaros. A beleza está além das palavras. Walt Whitman tinha a consciência disso quando disse: “Sermões e lógicas jamais convencem. O peso da noite cala bem mais fundo a alma…”. Ele conhecia os limites das suas próprias palavras. E Fernando Pessoa sabia que aquilo que o poeta quer comunicar não se encontra nas palavras que ele diz; antes, aparece nos espaços vazios que se abrem entre elas, as palavras. Nesse espaço vazio se ouve uma música. Mas essa música – de onde vem se ela se não foi o poeta que a tocou?
Não é possível fazer uma prova sobre a beleza porque ela não é um conhecimento. Tampouco é possível comandar a emoção diante da beleza. Somente atos podem ser comandados. “Ordinário! Marche!”, o sargento ordena. Os recrutas obedecem. Marcham. À ordem segue-se o ato. Mas sentimos que não podem ser comandados. Não poso ordenar que alguém sinta a beleza que estou sentindo.
O que pode ser ensinado são as coisas que moram no mundo de fora: astronomia, física, química, gramática, anatomia, números, letras, palavras.
Mas há coisas que não estão do lado de fora. Coisas que moram dentro do corpo. Estão enterradas na carne, como se fossem sementes à espera…
Sim, sim! Imagine isso: o corpo como um grande canteiro! Nele se encontram, adormecidas, em estado de latência, as mais variadas sementes – lembre-se da história da Bela Adormecida! Elas poderão acordar, brotar. Mas poderão também não brotar. Tudo depende… As sementes não brotarão se sobre elas houver uma pedra. E também pode acontecer que, depois de brotar, elas sejam arrancadas… De fato, muitas plantas precisam ser arrancadas, antes que cresçam. Nos jardins há pragas: tiriricas, picões…
Uma dessas sementes é a “solidariedade”. A solidariedade não é uma entidade do mundo de fora, ao lado de estrelas, pedras, mercadorias, dinheiro, contratos. Se ela fosse uma entidade do mundo de fora, poderia ser ensinada e produzida. A solidariedade é uma entidade do mundo interior. Solidariedade nem se ensina, nem se ordena, nem se produz. A solidariedade tem de brotar e crescer como uma semente…
Veja o ipê florido! Nasceu de uma semente. Depois de crescer não será necessária nenhuma técnica, nenhum estímulo, nenhum truque para que ele floresça. Angelus Silesius, místico antigo, tem um verso que diz: “A rosa não tem porquês. Ela floresce porque floresce”. O ipê floresce porque floresce. Seu florescer é um simples transbordar natural da sua verdade.
A solidariedade é como um ipê: nasce e floresce. Mas não em decorrência de mandamentos éticos ou religiosos. Não se pode ordenar: “Seja solidário!”. A solidariedade acontece como um simples transbordamento: as fontes transbordam… Da mesma forma como o poema é um transbordamento da alma do poeta e a canção, um transbordamento da alma do compositor…
Já disse que solidariedade é um sentimento. É esse o sentimento que nos torna mais humanos. É um sentimento estranho, que perturba nossos próprios sentimentos. A solidariedade me faz sentir sentimentos que não são meus, que são de um outro. Acontece assim: eu vejo uma criança vendendo balas num semáforo. Ela me pede que eu compre um pacotinho de suas balas. Eu e a criança – dois corpos separados e distintos. Mas, ao olhar para ela, estremeço: algo em mim me faz imaginar aquilo que ela está sentindo. E então, por uma magia inexplicável esse sentimento imaginado se aloja junto aos meus próprios sentimentos. Na verdade, desaloja meus sentimentos, pois eu vinha, no meu carro, com sentimentos leves e alegres, e agora esse novo sentimento se coloca no lugar deles. O que sinto não são meus sentimentos. Foram-se a leveza e a alegria que me faziam cantar. Agora, são os sentimentos daquele menino que estão dentro de mim. Meu corpo sofre uma transformação: ele não é mais limitado pela pele que o cobre. Expande-se. Ele está agora ligado a um outro corpo que passa a ser parte dele mesmo. Isso não acontece nem por decisão racional, nem por convicção religiosa, nem por mandamento ético. É o jeito natural de ser do meu próprio corpo, movido pela solidariedade. Acho que esse é o sentido do dito de Jesus de que temos de amar o próximo como amamos a nós mesmos. A solidariedade é uma forma visível do amor. Pela magia do sentimento de solidariedade, meu corpo passa a ser morada de outro. É assim que acontece a bondade.
Mas fica pendente a pergunta inicial: como ensinar primavera a gelos e areias? Para isso as palavras do conhecimento são inúteis. Seria necessário fazer nascer ipês no meio dos gelos e das areias! E eu só conheço uma palavra que tem esse poder: a palavra dos poetas. Ensinar solidariedade? Que se façam ouvir as palavras dos poetas nas igrejas, nas escolas, nas empresas, nas casas, na televisão, nos bares, nas reuniões políticas, e, principalmente, na solidão…
“O menino me olhou com olhos suplicantes.
E, de repente, eu era um menino que olhava com olhos suplicantes…”.
Rubem Alves, no livro “As melhores crônicas de Rubem Alves” 

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 Sempre que me sobra um mísero tempo, eu tenho vontade de  escrever. Ele anda escasso, veloz  e teimoso. Acredito que as palavras, este espa...